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Ab imo pectore.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Língua portuguesa no dia a dia: '10 euro' ou '10 euros'?

Dez libraS, dez dólareS,

todavia dez eurO
Vianney Mesquita*

Assimilar uma língua estrangeira em gramática ou manual é o mesmo que aprender pugilismo num livro de Anatomia (Pietro Silvio Solonghelo Rivetta, dito Toddi. – jornalista, escritor, ilustrador e cineasta. YRoma, 08.07.1886 –  01.07.1952).

Antes de oficializado o Tratado de Maastricht, instituinte da União Europeia, assinado nessa cidade dos Países Baixos, Capital de Limburgo, em 7 de fevereiro de 1992, pelos Estados-Membros fundadores – Bélgica, França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Países Baixos - era um deus-nos-acuda todas as vezes que se transpunha um país europeu e se necessitava adquirir a unidade monetária para despender na nação aonde se chegava – ponto de fulcro deste comentário.

Ab initio, decerto, é bom informar que a U.E. resulta da assinatura de vários acordos internacionais, feridos no ano de 1948, sendo que, em 1952, foi firmada a instituição da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Este representou o primeiro grande passo para a consolidação do bloco, resultante de debates efetivados no ano anterior, em Paris, a fim de convalidar a noção de uma Europa em paz, unida e próspera, alimentada desde a Primeira Guerra Mundial, sob o descortino de líderes eurocontinentais históricos, como, dentre muitos, Konrad Adenauer, Winston Churchil, Jean Monet, Robert Schumann e Altiero Spinelli.

Seguindo-se à mencionada CECA, ocorreram muitas cimeiras europeias, à proporção que mais Estados aderiam à ideia, até que se consolidou, em definitivo, em Maastricht, como antecipado linhas atrás, este bloco econômico, político e social, atualmente com 28 Estados-Membros, partícipes desse projeto integrador na contextura do território do Antigo Continente.

Eis que, por absoluta necessidade de conceder mais facilidades às negociações comerciais, políticas e sociais, não apenas cingidas ao Velho Mundo, mas também com tenções internacionais, no que respeita às relações diplomáticas, atividades turísticas e àquelas de outras ordens nos vínculos  das comunidades das diversos Estados, houve-se por bem criar, para circulação nos Estados adotantes e operações de câmbio em todo o orbe, a numisma a que se denominou euro, em curso desde primeiro de janeiro de 1999. Esta serve como papel-moeda de circulação naquelas nações que o perfilharam, eliminando-se, ipso facto, outros padrões numismáticos nas transações comerciais e outras necessidades próprias dos eventos de permuta monetária, de sorte que não têm mais curso, por exemplo, o franco francês, tampouco o florim, nem a lira italiana, muito menos o escudo, a peseta e outros dinheiros outrora de emprego dos outros países-parte dos dezoito insertos hoje na chamada Zona do euro.

A título de curiosidade, é oportuno dizer que, aqui na América do Sul, somente uma nação – a Guiana Francesa, departamento ultramarino de França – utiliza o euro como moeda comercial (não mais o franco francês) e para operações próprias, pois a antiga Guiana Inglesa, hoje República Cooperativa da Guiana, adotou o dólar guianense, ao passo que a Antiga Guiana Holandesa – hoje Suriname – assumiu como níquel o dólar surinamês.

Eis que, agora, adentro o punctum saliens  destas notas. É que surde um aparente busílis, assentado no fato de a unidade de ideia euro defluir de uma contração do vocábulo Europa, em homenagem a essa parte do Mundo onde ele corre. Então, por isso, deverá a palavra ser grafada com letra inicial grande?  Simplesmente, a resposta é não, pelo menos na contextura da Língua Portuguesa, porquanto os nomes conotativos das designações monetárias não estão no rol daqueles cujo sinal alfabético de saída deva ser maiúsculo – os nomes próprios.

Parece complicar um pouquinho mais, no concernente à representação de número – singular ou plural – no Português, problema que a própria União Europeia já houve por bem, desde o início, resolver, de sorte a não haver qualquer razão para se operar toda essa vexata questio, aliás, controvérsia descabida, assente na dúvida – que este escriba não exibe – acerca de pluralizar o termo euro ou deixá-lo sem o “s”, mesmo sendo mais de um.

  

Conforme o leitor divisa nas duas fotografias das notas de real e euro, os valores estão assim escritos – 100 REAIS e 20 EURO – no caso da moeda estrangeira, por determinação da própria União Europeia, sem a letra “s”, elemento de pluralização em Língua Portuguesa, o que não sucede em francês, alemão, holandês, flamengo, finlandês, grego e outros códigos em curso nos Estados da Zona do Euro.

Sendo, pois, o real numisma nacional, i. é.,  apenas do Brasil, impõe-se o emprego do “s”, nos casos de acima de um, é claro. Não haveria, porém, a União Europeia de impor um plural  somente com base nas regras de Portugal – aos outros dezessete países que assumiram a moeda, até porque, nas línguas da maioria, as regras de seus números – singular e plural – são diferentes.

Então, inexiste dúvida, ausência comprovada na própria decisão da EU de não pluralizar a dicção euro.

Certo e induvidoso, pois, é o fato de que euro não tem plural!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Arquiteto a posteriori

(Razões da alegoria)





        Decerto agastado com as opiniões dos comentadores de arte, de quem experimentou do látego, o poeta e artista paulistano Sérgio Milliet da Costa e Silva (20.09.1898 – 09.11.1966) demonstrou desagrado em relação a alguns deles, assim dizendo, em conhecida expressão:
O crítico é um ARQUITETO A POSTERIORI, habilitado a desmontar o conjunto da obra peça por peça, para dizer como foi feita e com que material. E nessa tarefa mexeriqueira de desmontagem e remontagem, mais de uma vez se engana e ficam sobrando parafusos. (DELLA NINA, 1985, p. 320).
        Sobejas razões assistem ao escritor de Cartas à dançarina, pois os criticastros, quando não usam da louvaminha, da bajulação, fazem o reverso, retalhando comentários sórdidos, via de regra tangidos pela inveja e animados pela vindita. Os comentaristas de verdade são sóbrios nos seus escólios, pois leves nos reparos e parcimoniosos no elogio. Reprováveis são as críticas encomendadas, como censuráveis se mostram as apologias e os ditirambos.
        Gilberto Freyre, por sua vez, também reclama, ao exprimir que certos críticos, no Brasil quanto em Portugal, abrem um romance ou um poema à cata de pronomes mal colocados, erros de infinito, falhas de metrificação.
        Para o Intelectual pernambucano, estes se exibem como simples guardas-civis da ordem gramatical, meros mata-mosquitos de higiene da Gramática (DELLA NINA, 1985).
        Outro expoente da nossa cultura a verberar contra os aristarcos brasileiros é Gladstone Chaves de Melo, ao se reportar, por exemplo, às increpações de José Feliciano de Castilho (irmão de Antônio, cego) e Franklin Távora, os quais, ao que se dizia, excitados com dinheiro oficial, moveram “injusto e impiedoso” esforço, de estudo, contra José Martiniano de Alencar, o filho, em relação à polêmica travada acerca da Confederação dos Tamoios, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, o Visconde do Araguaia.
[...] é uma campanha de desmoralização e de descrédito, organizada e levada a efeito com técnica e minúcia, um ataque sistemático e constante ao político, ao jurista, ao dramaturgo, ao romancista, ao escritor... É a crítica soez, feita a retalhos. Castilho é o tipo do caturra, gramaticoide estreito, exsudando latim e erudição por todos os poros, arvorando-se em mestre do bom gosto, do estilo, em paladino da vernaculidade. (MELO apud LELLIS, in MESQUITA, 1989).
        No concerto internacional, consoante o enorme João W. Goethe (1740-1832), o mais cáustico dos críticos é o amador mais fracassado (DELLA NINA, 1985), referência que, aliás, deve doer profundo a quem é assim conceituado.
      O festejado escritor de O Vermelho e o negro, Stendhal (Henrique-Maria Beyle – Grenoble, 23.l.1783; Paris, 27.3.1843), por sua vez, parte para a liça aprestado com os aços da palavra, ao exprimir, revoltado, a uma pessoa que dirigia comentários com desaires a uma de suas obras: “Este homem não tem a minha opinião; logo, é um imbecil; critica o meu livro, logo é um celerado, ladrão, assassino, asno, falsificador, canalha, covarde. (ID IBID., 319).”
Também Jorge Cristóvão Lichtenberg (Ober-Ramstadt, 1.7.1741; Gottingen, 24.2.1749), filósofo e primeiro docente de Física Experimental da Alemanha, acicata os maus críticos, ao exprimir a ideia de que, entre os maiores descobrimentos realizados pela mente humana, nos últimos tempos, figura a arte de julgar os livros sem sequer os folhear (IDEM), isto é, o não-li-não-gostei das mentes desprovidas, que comentam os escritos de alguém às vezes sem sequer proceder à leitura das guarnições.
Efetivamente, esses exemplos, pinçados de centenas de registos procedidos por pessoas afamadas e açoitadas pelos criticoides, malgrado verdadeiros, liberam a verve dos honestos comentaristas, os quais, à isenção, erigem aos seus devidos patins a arte produzida, conferindo-lhes o merecido lugar no pantheon da história, conduzindo-os ou não à posteridade, resistentes ou não resilientes às intempéries e modismos, e.g., da indústria cultural, divisada inauguralmente por Max Horkheimer e Theodoro Wiensengrund Adorno.
Como primeira serventia, no entanto, intentamos com estas referências justificar a alegoria do título deste livro – ARQUITETO A POSTERIORI – com a vênia do artista e escritor paulistano referido no pórtico deste segmento.
           Subsidiariamente, também, expressamos a ideia de homenagear esse literato, de referência nacional e mundial, como jornalista, poeta bilíngue (escrevia em francês – seu avô tinha essa nacionalidade) e tradutor. Como assere o escritor paulista Mário da Silva Brito (* Dois Córregos, 14.09.1916),
         [...] nome de importância na história da cultura de vanguarda no Brasil, tendo-se interessado por todas as manifestações inovadoras surgidas no País, a partir da Semana de Arte Moderna, da qual foi participante. Fez a polêmica modernista, notadamente a irrompida entre os próprios grupos renovadores, e, pela sua busca de equilíbrio, já o apontaram como o elo de ligação (sic) entre os modernistas históricos e as novas gerações suas sucessoras. (Apud MENEZES, 1969, p. 840).
Expressa, ainda, esse seriíssimo crítico da Literatura brasileira, o fato de que, da obra em língua prosa do poeta de Par le Sentier e Les Départ Sons Pluie, tem destaque,
          [...] especialmente para o conhecimento da evolução do modernismo, e notadamente da poesia dessa fase, a série intitulada Diário Crítico – vasto painel que documenta as ideias, os livros e os autores do período que abrange. (ID. IBID., pp. 840-1).
         Nossa homenagem e reconhecimento a este, que abre o volume e apadrinha as dezenas de produtores cearenses aqui comentados, em seus escritos de ciência e tecnologia e literatura, em uma reunião de artigos, guarnições, quartas capas, pronunciamentos e prefácios ajuntados ao longo de algum tempo e que não perderam a atualidade e a essência, de sorte ter valido a pena – pensamos – guardá-los e, agora, trazê-los enfeixados na forma de livro.
        Chamamos a atenção para o fato de que não nos consideramos arquiteto ao depois, porquanto não desmontamos nem remontamos nada, limitando-nos a comentar – sem bater nos autores e tampouco os adular. Também optamos por não escrever a respeito de trabalhos de má qualidade, nem tomar de assalto os bons escritos, pespegando-lhes, adredemente, defeitos nestes não contidos, como procedem certos comentadores para estimular a arenga e proceder à vindita, pois (e isto é uma glória) não constituímos desafetos.
         Os textos neste livro comentado – todos – são de boa qualidade.
         Neste comenos, pedimos vênia aos leitores para reproduzir a epígrafe do nosso primeiro livro – Sobre livros – aspectos da editoração acadêmica – publicado pelas Edições UFC em 1984. Historicamente, consoante a pesquisadora Leilah Santiago Bufrem, na investigação Editoras Universitárias Brasileiras – uma crítica para a reformulação (São Paulo: EDUSP, 2001), nosso livro há pouco mencionado é o primeiro da área de editoração acadêmica do Brasil.
     A prefalada epígrafe é da colheita de Pavel Dmitriyevich Korin (Palekh,8.7.1892; Moscou, 22.11.1967), pintor e restaurador de arte, conhecido pelo tamanho enorme de suas peças e em razão do seu extraordinário realismo.
           A menção coincide com a nossa intenção ao preparar este trabalho.

          Mi articulo no es um tratado cientifico ni un programa, sino más bien meditaciones en lo alto de un puerto montañoso, cuando el largo camiño queda ya atrás, pero la cima se encuentra todavia delante desde la altura conquistada por nuestro arte desde la altura de los ideales y objectivos del siglo, se siente la necessidad de ojear en torno, de mirar atrás y de avizorar el futuro. Ocurre eso porque el presente es siempre un puente entre el passado y el porvenir.

ORAÇÃO – SILÊNCIO E RECOLHIMENTO



Vianney Mesquita



Segundo o conceito mais geral e notório, oração corresponde à elevação da alma e do coração a Deus, a fim de adorá-lO, agradecer-Lhe e dEle solicitar as graças de que todos necessitam.
Em ideia semelhante, denota a súplica destinada aos santos, com o escopo de rogar-lhes, como entes que já privam da Presença Divina, a intercessão, junto ao Criador, para que Ele aceda aos pedidos de cada qual, desde que procedentes e justos: “Vosso Pai sabe o que vos é necessário, primeiro que vós lhO peçais”.(Mt. 6-8).
Com efeito, para a súplica ser integral e efetiva, é absolutamente indispensável uma circunstância especial: haver SILÊNCIO e RECOLHIMENTO. Impõe-se, portanto, antes de tudo, se aquietar o espírito, sossegar o transporte e a têmpera da alma, por via da tranquilidade, com vistas a se instalar a meditação sob quietude completa.
           Afigura-se realmente impossível uma pessoa orar ao ritmo da celeuma e ao compasso do ruído, quando da comunicação com o Pai e os seus eleitos. A prece jamais poderá suceder, efetivamente, sem o recato espiritual, na ausência de SILÊNCIO absoluto e RECOLHIMENTO perfeito.
           O tempo durante o qual se permanece no templo antes de iniciar o ministério da Santa Missa é a ocasião ensejada para se aprestar a ambiência de oração, aprontar o locus da paz e quietação e completar o diálogo com Deus na plenitude.
           É por demais recorrente, entretanto, no interior de nossas igrejas, capelas, santuários e afins, o fato de os fiéis demandarem os requisitos do SILÊNCIO e do RECOLHIMENTO e não lograrem sucesso em tal pretensão, em virtude da interferência de cochichos e colóquios, até em tons elevados, por parte de seus vizinhos, cobrindo todo tipo de assunto, desde os temas domésticos e as fofocas até o futebol.
Resta, então, por conseguinte, inviabilizada a condição propícia à conversação transcendente, configurada nas preces, para recepcionar a celebração do Ofício Divino.
        Não será, entretanto, o cumprimento sóbrio, a vênia ou reverência discreta, a obstarem um bom estado de oração -- isso é admissível. Contrario sensu, a zoada e a sibilação constantes, denotativas de uma insuficiente urbanidade – estas, sim – é que atalham os pensamentos de quem pretende e precisa rezar, confundindo o entendimento comunicacional com as Pessoas do Alto e baldando o ideal de quem se dirigiu à Igreja com o objetivo de agradecer, pedir perdão, implorar por quem se finou e tantas outras rogativas de que o ser humano é carecente.
         Respeitemos, pois, o fiel cristão que intente estabelecer ligação pacífica e sem arruídos com Deus e os seus santos, colaborando ao fazer SILÊNCIO – este que, na dicção do escritor e político espanhol Luiz Araquistain, é o pai da meditação, que é a mãe da crítica, e esta, por sua vez, é a madrasta do pessimismo.
        Reverenciemos, pois, esses irmãos que desejam orar e não podem, em virtude do pouco caso, dessa indiferença em relação a eles, das conversas travadas em fala alta na intimidade da Igreja, impedindo os liames que cogitam estabelecer com o Pai Celeste e as almas nEle santificadas.
        Tenhamos, por conseguinte, na devida conta o fato de que a ORAÇÃO efetiva solicita a circunstância primordial do SILÊNCIO e do RECOLHIMENTO!



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

INTELECÇÃO E EMOÇÃO


*Vianney Mesquita


Nalgumas ocasiões, apreciei, sob o prisma formal de elocução e gramática, os corretos escritos acadêmicos da Prof.a Francy Macedo, salvante lapso de lembrança, desde sua graduação, até o projeto de doutoramento, ora desenvolvido por ela junto à Universidade de São Paulo – USP.
Mestra jovem, no entanto, dotada de esmerados aprestos universitários no campo de conhecimento parcialmente ordenado escolhido para cultivar, agora – não sabia eu – envereda, com jeito, graça e beleza, pelo terreno da crônica, ficção e poética, no qual se demonstra, de plano, escritora pronta nesta seara, a igual do acontecido na senda da escrita científica.
Este, sem dúvida, é fato auspicioso e salutar, porquanto o trajeto e a fixação na mera ciência – feliz ciência, cujo escopo é afluir ao bem da Humanidade – muita vez deixa seu militante pesquisador na sequidão dos sistemas teóricos, na aridez anímica dos laboratórios e campos de prova, quando se descuida do espírito e deslembra da existência da Alma.
Como o faz, penso, é o modo apurado de proceder, entretecendo o componente da atividade formal categórica da ciência (embora exato, álgido e indiferente aos apelos do sentimento) com a sensibilidade do coração e a elevação incorpórea, em contraposição à matéria, por via da crônica, do conto, do estro e ardor poéticos, expressos com qualidade inconcussa neste volume.
Escolheu muito bem a autora deste Sublime Influxo –  ao dosificar  com a devida justeza os símplices da intelecção (científica) e da emoção (literária) – seus assuntos a tornear, imprimindo aos conceitos expendidos o caráter misto na literatura por ela exercitada, fato, suponho, do agrado, também, dos leitores atuais e a granjear, pois se espera prolífica sua produção.
Evidentemente, nestas guarnições, não me impende comentar as diversas partes do livro, sob pena de subtrair do público ledor a surpresa e a novidade. É válido, entretanto, asserir a gratificação por mim experimentada no decurso de sua leitura, hajam vistas o apuro estilístico, o capricho imprimido quando da expressão das emoções, o requinte dos desfechos, o esmero na forma de grafar, alfim, a sobreexcelência desta produção, mesmo em se tratando, ainda por enquanto, de escritora incipiente nos enredos das letras de ficção e poesia.
Fortaleza, janeiro de 2011
*Vianney Mesquita é professor da Universidade Federal do Ceará, jornalista e membro titular das Academias Cearenses da Língua Portuguesa, e de Jornalismo e Literatura (cadeiras números 35 e 11, respectivamente).

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Teoria (e prática) dos Afetos


Em pleno domingo quasímodo (11.04.2010), experimentei o encanto de ler um mimo do Criador, obsequiado à imensa poetisa Neide Azevedo Lopes, logo a mim por ela substabelecido.


A quadra pascal é espiritualmente propícia para se apreciar arte tão edificante, a fim de se teorizar e, jamais, praticar metros e afetos, como procede a autora de Teoria dos Afetos desde o uso da razão, quando sua vida passou a coincidir com uma rima rica.

Neide fez-me lembrar de Sônia Leal Freitas, no Cedro do Éden, monumental obra acerca da qual comentei nas guarnições há uns oito anos.

Na Teoria (e na prática) dos afetos, também quedo pasmado, como a reler o Metal Rosicler, de Cecília Meireles, menos por identidade estilística e mais pelo esplendor vocabular e elevação ideativa, fluência e estro desdobrados, centuplicados a cada elaboração. Nalgumas passagens, Neide, também, mostra similitude com Gabriela Mistral, Nobel de Literatura (1945), no seu Ternura, enquanto noutras estâncias aparece, ainda, com a elevação comovente da Marquesa de Alorna.

Pelo fato de bem o saber, ela emprega, com propriedade e exatidão, os expedientes figurais admissíveis na poesia, aformoseando redundantemente a estesia de suas composições. E assim, tomada por um enlevo anímico, veemência dos escolhidos, achega-se ao Ressuscitado, para o Qual também solicita o leitor a rezar, ao decodificar suas primorosas composições.

Tal como sucede com Sônia, sua originalidade e inspiração multíplice de elaborar representações, conformando-as extraordinariamente à dvlcisonam et canoram lingvam cano, parecem acercá-la de Florbela (de Alma da Conceição) Espanca (Juvenália; Livro das Mágoas).

Também os efeitos imprimidos nas expressões de musicalidade do seu metro fazem-me evocar os botticellis, rafaéis e michellangelos da Capela Sistina, bem assim a expressão da alma nacional galega de Rosalía de Castro, em O Cavaleiro das Botas Azuis.

Neide Azevedo Lopes é um verso de sete ictos do sonetilho a exornar a poética tematicamente múltipla, de formosura inimitável, beleza desigual, diretamente proporcional à magnificência de sua adorável pessoa.

TEMPO FUGAZ*



A marcha rigorosa do tempo chega a impressionar pela rapidez como acontece, haja vista sua cadência inalterável, de compasso absolutamente regular, a registar as coisas com tudo já delineado, como lima a operar sem fazer ruído.

Esta reflexão tenciona evocar os dois anos de passamento do Professor Ícaro de Sousa Moreira (17.04.2008), na plena maturescência produtiva, aos 55 anos, no exercício de dez meses como reitor da Universidade Federal do Ceará.

Qual em uma quadra kubitsckeana – fazendo remissão aos “50 anos em cinco” do Presidente Juscelino – os pouco mais de 300 dias de administração do décimo segundo reitor da UFC foram munificentes em realizações, pródigos na efervescência institucional, com o início e desenvolvimento de arrojados projetos, ainda hoje em franco decurso, cujos objetivos bem meditados lhes asseveram o êxito planejado.

A interiorização-“litoralização” da UFC, envolvendo o tripé da atividade acadêmica em Sobral, no Cariri (criação e expansão) e Quixadá, por exemplo, demonstra cabalmente a firmeza de propósitos da sua administração – bem assim, em tese, de administrações anteriores – na determinação com que abraçou a efetividade de tão ousados projetos universitários.

Assim o são, também, outros da mais alçada significação, como a conquista , sob seu reitorado, da elevação do conceito de 12 cursos de pós-graduação, a transformação do Instituto de Cultura e Arte – ICA em unidade acadêmica e tantos outros cujo cômputo não é cabível aqui declinar.

O mais relevante é o fato de ter sido ele exemplo de intrepidez responsável, valentia reverente e ousadia indômita, nas 15 horas ou mais dedicadas à Instituição, e, em cascata, emulando seus assessores e todo o conjunto de recursos humanos a agilitar o ritmo do seu trabalho para se compadecer à sequência expedita de sua maneira de operar.

Assim, agora sob a regência do seu então vice-reitor, Prof.Professor Jesualdo Farias – o qual a consulta acadêmica, em momento de lucidez, escolheu para o mandato de quatro anos – o compasso laboral é semelhante e o “élan” funcional apresenta-se em elevação, de sorte que os resultados – também de programas feridos a ”posteriori” a sua passagem pela dimensão terrena – são exibíveis em documentos, nos “media” e na própria visão pública das obras executadas em visível e desembaraçada realização.

Sob o balanço deste singular momento por que transita nossa Universidade, de crença institucional e trabalho efetivo em programas que transpõem até a expectativa de normalidade da Academia, a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura acompanha suas fundas pegadas, quando se desincumbe -- avessa aos malefícios do tempo e simpática aos dividendos que este nos deu como herança -- sua tarefa de apoiar a UFC nos seus subidos propósitos, oferecendo equipamentos tecnológicos e humanos , com inteligência, responsabilidade e determinação, com vistas ao engrandecimento e perpetuidade do nosso labor conjunto.

Não nos incomodemos com o tempo. Aproveitemo-lo, porque, como sugere Quevedo y Villegas, não se veem as pegadas do dia, pois este só volta a cabeça para se rir dos que o deixam passar ...

(GUIMARÃES, F.A. Palavra do Presidente, in FCPCmídia, n.2)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

PROSA AOS DOMINGOS





Nutro particular afeição pelo jaez literário da crônica. A leveza desse gênero, decerto, atrai a maioria dos leitores, nomeadamente se veiculada nos diários sabatinos e dominicais.

Nos fins de semana, os cadernos se conformam, também, a matérias menos prosaicas, transpondo a trivialidade de notícias, reportagens, entrevistas e demais expedientes informacionais a suster o periodismo diurnal das nossas cidades.

O exercício da crônica, a despeito de praticado desde datas muito recuadas, como suporte de relatos verdadeiros e nobres, passou, nos oitocentos, a ser móvel da atenção de escritores de nomeada, os quais a desenvolveram à saciedade, para refletir, com perspicácia e em momentos propícios, a vida da sociedade, concernente às relações sociopolíticas, motos culturais citadinos e a tantos outros motivos a ensejar conceitos.

Conforme o fizeram, exempli gratia, no Brasil e em Portugal, Machado, Alencar, Eça e Ortigão, muitos renomeados compositores ensaiaram seu gênio inventivo via recursos da crônica, em livros e folhetins. E também nos jornais. De passagem e a propósito, cumpre dizer, a espécie literária em alusão constitui uso particular, ainda hoje, da prática jornalística do País, sendo este um dos poucos, senão o único, a exercer a crônica, mediante a qual obtiveram visão pública eminentes jornalistas pátrios, hoje cultuados, como o foram, dentre tantos, Evaristo da Veiga, Alcindo Guanabara e Carlos Lacerda.

Com imenso agrado, há pouco deparei a leitura dos originais de Conversa de domingo, crestomatia muito bem joeirada, da autoria de João Soares Neto, conhecido e apreciado cronista e homem de negócios cearense. Ali, exprime suas prendas naturais na grade literária ora sob glosa, obediente ao melhor padrão estético e sujeito às regras da língua, averso, no entanto, daqueles servilismos elocutórios, de natureza estilística, tão comuns aos escrevinhadores ainda estagiários na senda nem sempre muito acessível da literatura.

Sua prosa é fácil, magnificamente correta, arquitetada com o esmero vocabular e o veio imaginativo do escritor pronto, na qual demonstra, nas entrelinhas, conhecimento lato e erudição temperante, como se estivesse a cuidar para não parecer afouto na manifestação de seus capitais cultural e social, fato, convenhamos, alentador para o consulente avesso a exibicionismos estilísticos e jactâncias pessoais.

Conversas de domingo reúne poucas dezenas de gimmics de apurado paladar artístico, a ser saboreado de uma vez, em assentada única, para regozijo do espírito e levitação anímica, tal se apresenta seu teor bem meditado, sob agradáveis recursos literoestilísticos. Tem seu continente achegado dos toques de esteta plástico, assinados por Geraldo Jesuíno da Costa, bem como da Nota a si acrescida pelo editor e escritor brasileiro, com visão internacional, Nilto Maciel, ataviando redundantemente um trabalho já por si mesmo nutrido de alcance e merecimento.

Gostei de ver e recomendo a leitura.



Obs. De estudo, não empreguei a partícula que (como o faço há algum tempo) em nenhuma das classes de palavras a que pertence.